Deus como Fundamento do Ser e a Origem do Tempo, do Espaço e da Matéria
1. A questão mal formulada: “de onde veio Deus?”
A pergunta “de onde veio Deus?” é recorrente na filosofia da religião e na crítica moderna ao teísmo. Contudo, segundo a teologia cristã clássica, trata-se de uma questão conceitualmente equivocada, pois aplica categorias próprias da realidade criada — origem, causalidade temporal e dependência — Àquele que, por definição, é incriado.
Deus não é um ente entre outros entes, situado no interior do universo. Ele é o fundamento último do ser, aquilo que torna possível a existência de tudo o que existe. Como afirma o livro do Êxodo, no momento da revelação do nome divino:
“Eu sou aquele que é” (Êx 3,14).
Essa autodefinição não indica um ser localizado, mas o Ser por excelência, absoluto e necessário.
2. Tempo, espaço e matéria como contínuo criado
A realidade física se manifesta como um contínuo inseparável constituído por tempo, espaço e matéria. Essas dimensões não existem de forma independente, mas surgem simultaneamente. A ausência de qualquer uma delas tornaria as outras incoerentes.
Não pode haver matéria sem espaço, pois não haveria onde ela estivesse.
Não pode haver matéria e espaço sem tempo, pois não haveria quando existissem.
Essa interdependência aponta para um início comum, um momento inaugural no qual essas três dimensões passam do não-ser ao ser. A Sagrada Escritura expressa essa realidade de modo sintético e metafisicamente denso:
“No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Gn 1,1).
A tradição cristã sempre interpretou esse versículo como afirmação do começo real do universo, e não apenas como uma ordenação simbólica.
“No princípio” → início do tempo
“os céus” → criação do espaço
“a terra” → criação da matéria
(cf. BASÍLIO DE CESAREIA, Hexaemeron).
3. O tempo como criatura em Santo Agostinho
Santo Agostinho, especialmente no Livro XI das Confissões, oferece uma das reflexões mais profundas da tradição cristã sobre o tempo. Para ele, o tempo não é eterno, mas criado. Antes da criação, não havia passado nem futuro, pois não havia mudança.
“Não havia tempo algum antes que criasses o tempo”
(AGOSTINHO, Confissões, XI, 14).
Deus, portanto, não vive em sucessão temporal. Ele não passa de um momento a outro. Vive em um eterno presente, no qual tudo é simultaneamente conhecido. Assim, perguntar o que Deus fazia “antes” da criação é um erro categorial, pois o ‘antes’ pressupõe o tempo, que ainda não existia.
Essa tese preserva a transcendência divina e impede que Deus seja concebido como um ser condicionado pela criação.
4. Deus como Ser por essência em São Tomás de Aquino
São Tomás de Aquino aprofunda essa distinção ao afirmar que Deus é o ipsum esse subsistens, isto é, o próprio Ser subsistente. Em Deus, essência e existência se identificam; nas criaturas, não.
“Deus é aquele cujo ser é a sua própria essência”
(TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, I, q.3, a.4).
As criaturas possuem o ser de modo contingente: existem, mas poderiam não existir. Deus, ao contrário, é necessário. Ele não recebe o ser; Ele é o ser.
Por isso, criar significa, em sentido próprio, dar o ser a partir do nada (creatio ex nihilo). Esse ato não é apenas inicial, mas permanente:
“Se a ação divina cessasse, as coisas cessariam imediatamente de existir”
(TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, I, q.104, a.1).
5. Tríades do criado e vestígios da Trindade
A criação manifesta estruturas ternárias que não constituem a Trindade divina, mas que podem ser compreendidas como vestígios do Criador (vestigia Trinitatis), segundo Santo Agostinho.
O tempo: passado, presente e futuro;
O espaço: comprimento, largura e altura;
A matéria: sólido, líquido e gasoso.
Essas tríades não devem ser confundidas com a Santíssima Trindade, que é mistério revelado, não dedução natural. Contudo, indicam que a criação possui uma ordem relacional que reflete, analogicamente, a racionalidade do Criador.
(cf. AGOSTINHO, De Trinitate, VI).
6. Transcendência e imanência divina
Deus, sendo criador do contínuo espaço-tempo-matéria, não pode estar contido nele. Se estivesse submetido ao tempo, não seria eterno; se estivesse limitado pelo espaço, não seria infinito; se fosse composto de matéria, não seria simples.
Ao mesmo tempo, Deus não está ausente do mundo. São Tomás ensina que Ele está presente em todas as coisas:
por poder, pois tudo depende Dele;
por presença, pois tudo está diante Dele;
por essência, pois Ele sustenta o ser de tudo o que existe.
(cf. Suma Teológica, I, q.8, a.3).
São Paulo expressa essa verdade de forma sintética:
“Nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28).
7. Convergência dos grandes teólogos
São Basílio Magno vê na ordem do cosmos um argumento pedagógico para a fé (Hexaemeron).
São Gregório de Nissa afirma que o infinito de Deus jamais pode ser esgotado pelo conhecimento humano.
São Boaventura ensina que toda criatura é um vestígio que conduz à contemplação do Criador (Itinerarium Mentis in Deum).
Todos convergem na mesma afirmação fundamental: Deus não é parte do universo; o universo é totalmente dependente de Deus.
8. Conclusão
A pergunta “de onde veio Deus?” dissolve-se quando se compreende corretamente a distinção entre Criador e criatura. O tempo começou, o espaço foi estendido, a matéria foi chamada à existência. Deus, porém, não começou.
Ele é eterno, simples, necessário e absoluto. Não está submetido ao contínuo que criou. Se estivesse, não seria Deus. O universo aponta, por sua própria existência, para Aquele que é o Princípio sem princípio, o fundamento último de todo o ser.
Referências básicas
BÍBLIA SAGRADA. Gênesis 1,1; Êxodo 3,14; Salmo 90,2; Atos 17,28.
AGOSTINHO, Santo. Confissões. Livro XI.
AGOSTINHO, Santo. De Trinitate.
TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. Parte I.
BASÍLIO MAGNO. Hexaemeron.
BOAVENTURA, São. Itinerarium Mentis in Deum.