Para Ele são todas as coisas

Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas

Na visão católica, falar de Deus é entrar no mistério do Ser absoluto, eterno e infinito. Deus não é um ente entre outros, não é parte do universo, nem está contido no tempo ou no espaço. Ele é o próprio fundamento do ser, Aquele que é. Quando o Gênesis afirma: “No princípio, Deus criou o céu e a terra”, revela uma verdade profunda: antes do princípio, antes de qualquer realidade criada, Deus já existia em plenitude. Ele não começou a ser; Ele simplesmente é.

No diálogo com Moisés, narrado no Êxodo, Deus se apresenta como “Eu Sou Aquele que Sou”. Essa revelação é central para a compreensão católica: Deus é o Ser subsistente, a fonte de todo existir. Enquanto tudo o que conhecemos é contingente — isto é, poderia não existir — Deus é necessário. Ele não depende de nada; tudo depende d’Ele.

O tempo, por sua vez, não é eterno. Ele é criatura. Santo Agostinho de Hipona refletiu profundamente sobre essa questão ao perguntar: “O que é, pois, o tempo?” E concluiu que o tempo começou com a criação. Deus não criou o mundo dentro de um tempo já existente; Ele criou o próprio tempo. Antes da criação, não havia sucessão de instantes, nem passado, nem futuro. Havia apenas a eternidade divina, que não é uma duração infinita, mas um eterno presente. Para Deus, tudo é presente. Ele contempla, em um único ato simples e perfeito, aquilo que para nós se desenrola em séculos.

Essa verdade consola e ao mesmo tempo nos humilha. Consola, porque significa que nossa história não está perdida no caos dos acontecimentos. Cada momento da nossa vida está diante de Deus. Humilha, porque nos recorda que somos limitados, enquanto Ele é infinito. Nós caminhamos no tempo; Deus o sustenta.

O espaço também é criatura. Deus não está “em” algum lugar como se estivesse limitado por coordenadas. Ele é onipresente não porque ocupe todos os espaços, mas porque está inteiro em toda parte. Onde quer que exista algo, ali Deus sustenta o ser dessa realidade. Se Ele retirasse seu olhar criador por um instante, tudo voltaria ao nada. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica, a criação não é apenas um evento passado, mas uma ação contínua: Deus cria e sustenta a cada instante.

A matéria, muitas vezes desprezada por correntes filosóficas antigas, é vista pela Igreja como algo bom. O próprio relato da criação afirma que Deus viu que tudo era “muito bom”. A matéria não é inimiga do espírito; ela é obra das mãos divinas. O universo material, com suas galáxias, estrelas e leis físicas, manifesta a ordem e a sabedoria do Criador. São Tomás de Aquino ensinava que, pela razão, podemos chegar ao conhecimento da existência de Deus ao contemplar o movimento, a causalidade e a ordem do mundo.

Mas o ponto mais alto dessa reflexão é o mistério da Encarnação. No prólogo do Evangelho de João, lemos: “E o Verbo se fez carne”. Aqui, o eterno entra no tempo. O Criador assume a matéria. Em Jesus Cristo, Deus não apenas toca a criação; Ele a assume. O Filho eterno nasce em um lugar concreto, em um momento específico da história. Ele cresce, caminha, sofre e morre. O infinito se faz pequeno; o eterno aceita viver nossas horas.

Esse mistério revela que o tempo tem sentido. Não caminhamos para o vazio, mas para um cumprimento. A história não é um ciclo interminável, mas uma linha que se dirige à plenitude do Reino de Deus. Cada segundo é oportunidade de graça. Cada espaço pode se tornar lugar de encontro com o Senhor. Cada realidade material pode ser instrumento de santificação.

Os sacramentos confirmam essa verdade. A água do Batismo, o pão e o vinho da Eucaristia, o óleo da Unção: elementos materiais tornam-se sinais eficazes da graça. Deus utiliza a matéria para comunicar o sobrenatural. Isso demonstra que não há oposição entre criação e salvação; há continuidade e elevação.

Assim, na fé católica, Deus transcende o tempo, o espaço e a matéria, mas não está distante deles. Ele os cria, sustenta e conduz ao seu fim último. O universo não é fruto do acaso, mas expressão de um Amor inteligente. O tempo não é inimigo, mas caminho. O espaço não é vazio, mas palco da glória divina. A matéria não é obstáculo, mas instrumento.

Diante desse mistério, resta-nos a atitude da adoração. Reconhecer que somos criaturas, limitadas e temporais, mas chamadas à eternidade. Em Deus, o tempo encontra seu sentido, o espaço encontra sua razão, e a matéria encontra sua dignidade. Tudo vem d’Ele, tudo subsiste por Ele e tudo caminha para Ele. E, no fim, quando o tempo cessar e a história atingir sua plenitude, participaremos da eternidade daquele que é, que era e que sempre será.

A Ele a glória, pelos séculos dos séculos, Amém!

Deus os abençoe e guarde!

Sou SERGIO LUIZ MATIAS, Mestre em Teologia Sistemática e Bacharel em Teologia, com especialização em Liturgia e em História Antiga e Clássica. Sou escritor,  e atuo em palestras, pregações, congressos, aulas e cursos.

Também sou graduado em Design com pós-graduações em branding, marketing digital e marketing para vendas, com mais de 20 anos de experiência, atuando com grandes empresas do mercado.